quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Meu pai: gauche na vida!

Por Júlia Lemos

O meu pai é daqueles que recebeu o anjo torto de Drummond e foi ser gauche na vida. Por trazer uma voz inconformada por dentro, muito cedo partiu pra luta por um mundo melhor. Ele estava na Amazônia numa base de guerrilha contra a ditadura militar quando minha irmã Tati nasceu. Quando veio minha irmã Maíra, ele estava comemorando a Anistia. E, quando eu vim, refundando o Partido Comunista do Brasil. 

A sua voz inconformada buscava se elaborar na militância e nos livros. Na música clássica e na MPB. Eu cresci ouvindo os lindos discos que ele colocava na vitrola, com a imagem dele à volta com pilhas de livros e ouvindo o discurso sobre como não ter uma vida mesquinha e egoísta. Mais do que ouvindo esse discurso,vendo o seu exemplo. Ele sempre estava disposto a ir pegar as estrelas do céu não só para nós, suas filhas, mas para todos os que precisassem. Disposto a sair de madrugada para nos buscar nas festinhas adolescentes com direito a declamação de poesias inteiras no caminho da volta. Sua voz inconformada nunca conseguia se conter em nos instigar a pensar, a pensar e a pensar. E foi  nos ensinando a pensar que ele corrigiu nossos erros sem nunca nos levantar a mão. 

Foi em diálogos ricos que ele nos mostrou a naturalidade no contato com a sexualidade na adolescência. A importância de saber compartilhar com as irmãs o quarto, os objetos pessoais, o sentimentos. A importância de buscar um mundo em que o viver compartilhado se sobreponha à violência do eu individual sem limites. Meu pai nos fez saber que a vida de engajamento comunitário, político, é a mais plena de humanidade Nos fez saber o princípio socrático de que uma vida sem exame não merece ser vivida, o princípio timbira. de que a vida é luta e o princípio marxista de que o fim supremo desta luta não é meramente pessoal, mas sim realizar um humanismo real na sociedadeE assim ele nos fez herdar a sua voz inconformada.

Em mim essa voz se fez mais forte pela imagem das pilhas de livros e pela sua citação do poema de Castro Alves que sempre vinha nas dedicatórias dos livros que me dava:

Filhos do século das luzes! 
Filhos da Grande nação! 
Quando ante Deus vos mostrardes, 
Tereis um livro na mão: 
O livro — esse audaz guerreiro 
Que conquista o mundo inteiro 
Sem nunca ter Waterloo... 
Eólo de pensamentos, 
Que abrira a gruta dos ventos 
Donde a Igualdade vooul..

(...)
Oh! Bendito o que semeia 
Livros... livros à mão cheia... 
E manda o povo pensar! 
O livro caindo n'alma 
É germe — que faz a palma, 
É chuva — que faz o mar.


O meu pai gauche na vida é o meu mestre de amar: amar o comum-viver e amar o saber. Hoje, já na minha vida adulta, é o meu precioso amigo em longas conversas não só de inconformidade, mas também de encantamento.

Obrigada por tudo isso, pai!

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